Pub do Porrada

Um conto, dois contos, três contos...

aqui vão alguns dos meus escritos para você lerem e comentarem.

10 abril, 2008

Um fardo sem peso

A rua parecia deserta, e estava, não fosse uma única pessoa parada em frente ao portão de uma casa. Era um garoto de seus dezesseis anos e segurava um pequeno pacote embrulhado em papel pardo amassado. Seus olhos claros estavam bem abertos e assustados e seu corpo pequeno e muito magro parecia estar ficando cada vez menor, como se estivesse com medo. Com um gesto rápido, de repente pôs o capuz do casaco na cabeça escondendo seu rosto e deu uma olhada singela para os dois lados da rua. Foi a primeira vez que o garoto se mexeu em quinze minutos, e em nenhum momento deu sinal de que apertaria o interfone a sua frente.
Uma rajada de vento mais forte fê-lo olhar para o céu. O cinza claro estava se tornando escuro, sendo que logo a chuva cairia e ele teria de tomar uma decisão: ou voltava pra casa e acabava molhando o pacote, ou apertava logo o botão e fazia o que viera fazer.
Viu então de relance que na janela de um dos apartamentos, por trás das cortinas brancas semi-transparentes uma senhora o observava. Certamente teria ido fechá-la e dera com o garoto em frente ao portão. Logo chamaria a polícia para investigar o que ele estava fazendo ali por tanto tempo, pensava ele. Deveria também pensar que o pacote era uma bomba, ou um revólver escondido. Quanta imaginação pode ter um garoto dessa idade.
Tudo isso começou porque se atrasara nos exercícios de biologia, tendo então que ficar na sala de aula enquanto todos voltavam para suas casas a fim de almoçar. Logo que levantou da classe para sair, na ânsia de ir embora, acabou derrubando as folhas soltas que estavam dentro do caderno. Abaixou rápido para apanhá-las, uma por vez, com receio de sujar tudo, mas ao levantar a cabeça percebeu que havia um livro embaixo da mesa a frente, a mesa de Lílian. A mesma Lílian a qual guardava um amor platônico desde a quinta série. E a mesma que falara com ele apenas uma vez na vida, para pedir licença. No mesmo instante teve essa grande idéia de devolver o livro em mãos, por mais que a casa da garota não ficasse em seu caminho. Era a oportunidade perfeita para poder falar com ela, que talvez, por agradecimento, falasse mais do que um simples obrigado.
Não teve coragem o suficiente para atrapalhar chegando na hora do almoço, então esperou até de tarde para ir até lá. Ele poderia muito bem ter esperado até a próxima aula, como qualquer outra pessoa, entretanto, não vamos nos confundir: um apaixonado é um apaixonado, e isso não vai mudar. O amor sempre deixa as pessoas cegas, acreditando em si mais do que em tudo. E não sendo assim a história não aconteceria e é aí que está a questão.
Estava ele ali parado pensando que uma hora ou outra teria que finalmente apertar o interfone quando o esperado aconteceu. Eu digo esperado, mas não o esperado de vocês, leitores, mas o esperado do dia, o esperado do céu. O cinza escureceu totalmente e pequenos pingos de água começaram a cair lentamente, pouco a pouco pela calçada. Era tarde de mais para pensar, enfiou o pacote dentro do buraco do jornal e saiu correndo de volta pra casa antes que a chuva aumentasse. Lílian que ficasse imaginando quem deixara ali.
Nas primeiras duas quadras o garoto percebeu que a chuva estava aumentando progressivamente. Na terceira ele teve certeza. Os pequenos pingos engordaram e a água começou a escorrer pela calçada. Não demoraria muito para ficar encharcado. Nem pensou duas vezes, entrou no primeiro beco que encontrou, na esperança de ficar em baixo de alguma sacada. Não adiantou muito e o garoto ficou ensopado. Mas e o pacote? Lá foi ele de volta ao apartamento pega-lo antes que alguém se aventurasse no seu lugar.
No outro dia acordou um pouco mais cedo e fez tudo o que sempre fazia, tomou banho, escovou os dentes, tomou seu café da manhã com a irmã e os pais, depois saiu apressado, na esperança de passar perto do apartamento da colega para encontra-la sozinha e não ter que enfrentar os olhares curiosos dos colegas de escola. Mas que má sorte teve o nosso amiguinho apaixonado: sua escolhida também passara pela chuva, no entanto, ao contrário dele, havia pego um resfriado, obrigando-a a faltar aula.
A nova opção seria passar novamente no apartamento, assim aproveitaria para vê-la e mostrar o que sentia. E lá foi ele, todo arrumadinho entregar o pacote – que foi feito novamente, já que o outro havia se desmanchado com a chuva do dia anterior – para Lílian.
E não é que São Pedro estava de mau humor?
Pobre do nosso amiguinho... Mal teve tempo de jogar o pacote dentro da caixa de correspondência e já saiu correndo antes que a chuva aumentasse.

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